Pão de soda de espelta (e o meu buttermilk)... e o regressar a casa

{Spelt Soda Bread (and my buttermilk)... and returning home}

Acordar ao som de uma porta a fechar lá fora ou da água a correr no duche é algo que hoje em dia me parece um sonho só realizável ocasionalmente.
Abrir os olhos naturalmente ao invés de acordar ante os lamúrios pelo leitinho ou com as perguntas já sempre presentes ao fim de semana... "já é de dia? ... já é hora de acordar mãeeeeee?"
Ah sim, um verdadeiro sonho acordar um dia que seja ao lado dele, só os dois.     
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Waking up to the sound of a closing door outside or running water in the shower is something that today seems a dream feasible only on occasion.
To open my eyes naturally instead of waking up before whinings for milk  or questions nowadays always present at weekends ... "is it day already? ... Is it time to wake up mommyyyy?"
Ah yes, truly a dream to wake up for only one day next to him, just the two of us.

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Um fim de semana que seja, ausentes de tudo e todos é algo pelo qual ambos ansiamos frequentemente e fazêmo-lo porque sabemos o quanto isso significa para nós enquanto casal mas também enquanto pais.
O desligar um pouco de todas as obrigações que temos no dia a dia, a sensação de liberdade nas pequenas coisas de um dia por nossa conta, o sermos apenas nós enquanto casal, namorar e trocar mimos sem a interrupção de pequenas vozinhas que pedem mimo elas também.    
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For only a weekend, away from everything and everyone is something which both of us often yearn and we do it because we know how much it means to us as a couple but also as parents.
To turn off a little from all the obligations we have in everyday life, the feeling of freedom in the little things in a day on our own, to be just us as a couple, dating and exchanging caresses without the interruption of small little voices asking the same for them.

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Mas o melhor de tudo? O melhor de um fim de semana longe de casa?
Regressar a casa. 

Voltar ao nosso lar, sermos recebidos de braços abertos e risos de extase, sentirmos que é aqui que pertencemos verdadeiramente.
E celebrar, claro, à mesa como não podia deixar de ser. Com um lanche reconfortante, um pão acabado de sair de forno, crocante e quentinho que nos enche a alma e nos faz sentir verdadeiramente em casa.   
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But the best of it all? The best of a weekend away from home?
To return home.

Back to our home, to be welcomed with open arms and laughter of ecstasy, to feel that this is where we truly belong.
And to celebrate, of course, at the table as it could not be otherwise. With a comforting snack, a freshly baked bread out of the oven, crispy and warm that fills our souls and makes us feel truly at home.

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E este tornou-se um pão de eleição na nossa familía. Pela rapidez com que é feito, pelo sabor absolutamente delicioso, pela contraste da textura crocante exterior e consistência do interior.
Porque poucas coisas há que nos façam tão felizes como um fim de semana a dois ou o barrar da manteiga numa fatia de pão quente e partilhá-la com os nossos filhos.  
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And this bread has become a favorite in our family. Because of how quickly it is done, the absolutely delicious flavor, because of the contrast of the outer crunchy texture against the body of the interior.
Because there are few things that make us as happy as a weekend between just the two of us or to spread butter on a slice of warm bread and share it with our children.

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{Film Photography by 
Nuno Ribeiro developed and scanned at Carmencita Film Lab


Ingredientes

  • 1 3/4 chávena de farinha de espelta integral
  • 1 3/4 chávena de farinha de espelta branca
  • 1 c. chá de sal
  • 1 c. chá de bicarbonato de sódio
  • 2 c. sopa de manteiga
  • 1 ovo
  • 1 c. sopa de flocos de aveia
Para o buttermilk

  • 3/4 chávena de queijo Quark
  • 1/4 chávena de leite
Preparação

1. Pré-aquecer o forno a 215ºC.

2. Numa taça grande juntar as farinhas, o sal e o bicarbonato de sódio. Juntar a manteiga fria e desfazer com os dedos, apertando contra a farinha de forma a incorporar.

3. Numa taça à parte juntar o quark e o leite e misturar bem. Juntar o ovo e bater.

4. Fazer um buraco no centro da farinha e juntar a mistura, reservando apenas um pouco do buttermilk. Com a mão incorporar a farinha no liquido de forma rápida de forma a não trabalhar demasiado a massa. A massa deverá ficar mole mas não demasiado liquida.

5. Colocar numa superfície enfarinhada e formar um disco redondo com cerca de 4 cm. Fazer uma cruz com uma faca afiada e afastar ligeiramente a zona cortada. Pincelar com o restante buttermilk e polvilhar com os flocos de aveia.

6. Levar ao forno por cerca de 15 minutos e depois reduzir para 200º. Deixar por mais 30 minutos ou até o pão fazer um som ôco quando batido por baixo




Raviolis integrais de espelta com recheio de ervilhas e ricotta em beurre noisette... e saber quando não esperar.

{Whole spelt raviolis com pea ricotta filling in beurre noisette... and to know when not to wait}



Há quem diga que quem espera sempre alcança mas eu sei que nem sempre assim o é. Por vezes é tão mais fácil relegarmos a uma qualquer entidade aquilo por que esperamos, mas a verdade é que se o fizermos, o que ansiamos pode nunca chegar.   
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Some say who waits always gets but I know this is not always true. Sometimes it is so much easier to relegate to any entity that for which we expect, but the truth is that if we do, what we long for may never come.

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Esperamos que a oportunidade certa chegue, esperamos que os míudos saiam daquela fase mais complicada, esperamos que o tempo nos traga sabedoria e que amanhã a nossa disposição esteja um pouco melhor. 
Esperamos por um conjunto de coisas como se não tivessemos controlo algum sobre elas pelo simples fato de não nos queremos responsabilizar ou dar ao trabalho de mudarmos, nós próprios, o que exige ser alterado.    
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We hope for the right opportunity to come, we hope for our kids to get over that complicated stage of childhood, we hope that time will bring us more wisdom and that tomorrow we might be a little more friendly towards others.
We wait for a number of things as if we don't have any control over them simply because we don't want to be accountable for it or we just don't want to put enough effort, ourselves, in which needs to be changed.

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Eu cheguei à conclusão que há certas coisas que não podem ser uma opção. Não podem porque a vida é demasiado curta. Porque os nossos filhos crescem demasiado rápido e os nossos pais envelhecem sem darmos por isso. Porque há coisas que têm de ser valorizadas agora e não amanhã.
Não posso estar apenas à espera que aquela oportunidade chegue, tenho de trabalhar por ela. Não posso esperar que a birra passe, tenho de conversar e repetir as centenas de vezes que sejam necessárias o que é errado e o que não é. 
Não posso estar esperar que as hormonas me tragam uma melhor disposição, tenho de me obrigar a não perder a calma com quem não merece. 

E é quase como uma clarividência que nos assola quando percebemos que está tudo dentro da nossa cabeça. Que o controlo que temos sobre este tipo de coisas é tão maior do que aquele que pensamos ou queremos muitas vezes acreditar que temos.    
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I came to the conclusion that there are certain things that just can't be an option. They just can't because life is too short. Because our children grow up too fast and our parents age without us realizing it. Because there are things that have to be valued right now and not tomorrow.
I can't just be waiting for that opportunity to come, I have to work for it. I can't wait for the tantrum  to go away, I have to talk and repeat hundreds of times as necessary what is wrong and what is not.
I can't expect that the hormones bring me a better mood, I have to force myself to not lose my temper with those who just don't deserve it.

And it's almost like a clairvoyance that enlighten us when we realize that it's all in our heads. The control that we have on this sort of things is so much bigger than what we think or we often believe we have.

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Na vida há coisas que simplesmente não dependem de nós, mas aquelas que dependem não podem e nem devem ser descuradas.

Simplesmente porque não sabemos nem nunca saberemos o que o amanhã nos reserva.   
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In life there are things that we surely can't control, but those in which we have an option shouldn't and mustn't be neglected.  

Simply because we do not know and will never know what tomorrow holds.


{Film Photography by Nuno Ribeiro developed and scanned at Carmencita Film Lab


Ingredientes


Para a massa
  • 200 gr de farinha de espelta integral
  • 2 ovos (de preferência biológicos)
  • 1 fio de azeite
  • Água conforme necessário
Para o recheio

  • 1 chávena de ervilhas
  • 200 gr de ricotta
  • 1 fio de azeite
  • pimenta
  • sal 
Para a beurre noisette 
  • 125 gr de manteiga de boa qualidade
  • 3 ou 4 raminhos de tomilho-limão fresco
  • 1 punhado de nozes picadas 

Preparação

1. Para a massa, fazer um monte com a farinha e fazer um pequeno buraco no meio. Numa taça bater os ovos com o azeite e juntar este preparado à farinha. Com a ajuda de um garfo envolver a farinha no liquido o mais possível.

2. Amassar a massa com as mãos e caso necessário juntar um pouco de água até sentir a massa a ganhar forma. Formar uma bola, envolver com pelicula aderente e deixar repousar por 30 minutos a 1 hora.

3.  Dividir a massa em 2 porções e esticar cada uma delas de acordo com as instruções da máquina, passando sempre 2 vezes em cada abertura. Deixar as placas de massa tapadas com um pano húmido até ao momento de formar os raviolis.

4. Para o recheio escaldar as ervilhas em água a ferver cerca de 2 minutos. Escoar a água, reservando um pouco, e colocar as ervilhas num robot de cozinha juntamente com a ricotta, o azeite, o sal e a pimenta. Triturar tudo e juntar um pouco de água da cozedura caso esteja demasiado consistente.

5. Dispor pequenas bolas do recheio numa das placas de massa e com o dedo ou um pincel passar água naqueles que serão os rebordos dos raviolis. Por cima dispor a outra placa de massa e selar bem de forma a que saia o ar das 'bolsas'. Com a ajuda de um cortador cortar os raviolis no formato desejado.

6. Numa frigideira colocar a manteiga e deixar cozinhar em lume médio baixo, mexendo sempre, até que se comece a formar espuma e posteriormente a manteiga comece a ficar castanha (noisette). Juntar o tomilho-limão e as nozes e deixar fritar um pouco.

7. Cozer os raviolis por cerca de 4 a 5 minutos, escorrer e colocar dentro da frigideira ainda ao lume de forma a que fritem ligeiramente e tomem o gosto da manteiga.  




Risotto de couve-flor assada com salva e brie... e um longo percurso

{Roasted cauliflower risotto with sage and brie... and a long way}

No ínicio as minhas sopas levavam sempre aveia. O meu pão quase sempre saía maçudo e talvez abusasse um pouco em determinados ingredientes que não agradavam muito ao meu marido. 
Tentativas atrás de tentativas, procurava a cada nova refeição surpreendê-lo e deixá-lo rendido aos meus cozinhados. 
Não foi tarefa fácil, não porque ele seja esquisito, mas porque ambos temos gostos bastante diferentes no que se refere à comida. E eu tenho uma certa tendência para cozinhar o que gosto.
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In the beginning of times my soups were always packed with oats. My bread almost always baked to be very consistent and perhaps I used to abuse a bit in certain ingredients that did not please much to my husband.
Attempts ran one over another, and I tried at every one a new meal to surprise him and leave him surrendered to my cooking.
It wasn't very easy, not because he is picky, but because we both have quite different tastes when it comes to food. And I have a tendency to cook what I like.

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Ele gosta de texturas bem crocantes e estaladiças, eu gosto de consistências moles e cremosas. Eu adoro beterraba, cebola, alho, ele prefere os sabores mais neutros. Ele não gosta de aveia na sopa e prefere o pão fofo e com crosta forte.
Ao longo dos anos fui tentando aprender mais e mais sobre o gosto dele nos alimentos. Quais os sabores que mais gosta, quais as texturas que realmente elevam um prato segundo as suas preferências, o que realmente o faz querer repetir. E ao longo dos anos foram várias as tentativas e erros feitos. 
Também posso afirmar que, neste percurso a dois, também ele aprendeu a gostar de coisas que não gostava e a reconhecer qualidade em certos ingredientes que antes vedava por completo - a aveia hoje é algo que aprecia muitíssimo... ainda que não na sopa. 
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He loves very crispy and crunchy textures, I like soft and creamy consistency. I love beets, onions, garlic, he prefers the more neutral flavors. He doesn't like oats added in soup and prefers soft bread with a hard crust.
Over the years I've been trying to learn more and more about his taste in food. What are the flavors he loves, what are the textures that really elevate a dish according to his preferences, what is it that really makes him want to repeat. And over the years there were several made trials and errors.
I can also say that in this path traced by both of us, he also learned to like things he didn't before and to recognize quality in certain ingredients that he just forbade altogether - oats is something he now appreciates very much ... although not in the soup.
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E algures durante este percurso dei-lhe a provar o meu risotto. Foi talvez a primeira vez que vi os seus olhos arregalarem-se um pouco mais num sinal claro de que o meu risotto estava mais do que aprovado. 
Desde então este tornou-se um prato que lhe faço com frequência e com uma certa vaidade de saber que nenhum mais se compara ao meu. Afinal uma mulher tem o direito a ter um prato assim, uma espécie de assinatura sua que o seu marido reconhece como sendo o melhor de todos. 
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And sometime during this course I gave him my risotto to try. It was perhaps the first time I saw his eyes widen a little in a clear sign that my risotto was more than approved.
Since then this has become a dish that I do often and with a certain vanity knowing there isn't any other that can compare to mine. Afterall a woman has the right to have a dish thus, a kind of signature that her husband recognizes as the best of all.

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Sinto-me verdadeiramente orgulhosa do meu risotto. E sinto-me orgulhosa que o meu marido o prefira a qualquer outro, seja a versão que for.  
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I feel truly proud of my risotto. And I am proud that my husband prefers ir to any other, whatever the version I make.

{Film Photography by Nuno Ribeiro developed and scanned at Carmencita Film Lab





Ingredientes

Para a couve-flor
  • 1 couve-flor média
  • 1 fio de azeite
  • 1 c. chá de cominhos em pó
  • 1 c. chá de caril em pó
  • 1 punhado de folhas de salva
  • 1/2 chávena de amêndoa laminada
  • Sal
Para o risotto
  • 1 chalota
  • 1 fio de azeite
  • 1 chávena de arroz arborio
  • 2 1/2 chávenas de caldo de legumes (de preferência caseiro)
  • 1 c. sopa de manteiga 
  • 1/2 chávena de queijo da ilha ralado
  • Queijo brie em pedaços a gosto 
  • Sal
  • Pimenta

Preparação

1. Pré-aquecer o forno a 220ºC.

2. Num tabuleiro de forno colocar a couve-flor dividida em raminhos e regar com o azeite. Espalhar os cominhos, o caril e o sal e envolver bem. Levar ao forno cerca de 15 minutos. Juntar as folhas da salva e as amêndoas e deixar por mais cerca de 6 minutos até que fiquem crocantes e douradas.

3.  Colocar o caldo num tachinho e deixar levantar fervura.

4. Numa panela colocar o fio de azeite e a chalota e deixar amolecer bem. Acrescentar o arroz e mexer deixando o arroz começar a alourar um pouco. 

5. Juntar o caldo, 1 concha de cada vez, mexendo frequentemente e deixar cozinhar cerca de 18 a 20 minutos ou até que o caldo seja todo absorvido pelo arroz. Retificar os temperos.

6. Juntar a manteiga e o queijo e envolver para que derretam. Servir o risotto com a couve-flor assada e pedaços de brie.




09 10