Pão de Espelta de nozes e figos... e a Paixão

{Fig and walnut spelt bread... and the Passion}

Sou uma pessoa de rotinas e segurança. Não sou aventureira, não gosto do desconhecido e uma das frases que mais me deixa nervosa é a célebre e comum “tenho um desafio para ti”.
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I am a person devoted to routines and security. I’m not the adventurous type, I don’t appreciate the unknown and one of the phrases that makes me most nervous is the famous and common "I have a challenge for you."

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Não, o que eu gosto é de planeamento, de saber o que me espera e com o que contar. Do conforto da minha rotina, do café todas as manhãs às nove em ponto, da birra das minhas filhas sempre que as tiro da banheira, do conforto daqueles sapatos que nunca me desiludem. 

Mas afirmar algo assim é, nos dias que correm, visto como uma fraqueza. No mundo de competição em que vivemos há que encarar desafios e sair da nossa área de conforto. Deixar de lado as rotinas que tão bem nos aconchegam a criança que há em nós, para enfrentarmos aquilo que se releva assustador de forma a trazer de cima o adulto invencível e bem sucedido – aquele que nem nós reconhecemos. Já não basta sermos nós próprios, temos de ser génios e heróis. E temos, claro, de ascender numa pirâmide em que o topo é de poucos e para poucos. 
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No, what I do like is planning, to know what awaits me and what I can rely on. I like the comfort from my routine, I like my coffee every morning at nine o'clock sharp, I like the always certain tantrum of my daughters when I take them out of the bath tub, I like the comfort of those shoes that never fail me.

But to say something like this in these days is perceived as a weakness. In the world of competition in which we live one must face challenges and get out of the comfort zone. One must leave aside the routines that cuddle the child inside to face what is frightening in order to bring up the invincible and successful adult - one that we don’t recognise. We can no longer just be ourselves, we have to be geniuses and heroes. And, of course, we must ascend a pyramid in which the top belongs to few and is for few.

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Acontece que eu não concordo com isso. Não acredito que a competição tão venerada nos dias de hoje seja a chave do sucesso. 

Acredito antes que a paixão com que fazemos algo, sim, é a responsável por um outro nível de sucesso muito melhor. Aquele sucesso que nos torna felizes interiormente. O sucesso que alguém sente quando termina uma maratona, mesmo que não seja o primeiro a chegar à meta. O sucesso que alguém sente ao manter um blog mesmo que seja apenas conhecido por um punhado de pessoas. O sucesso de fazer algo que se adora e conseguir ir mais longe não porque se compete com outrem, mas porque simplesmente é natural que assim seja.
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I happen to disagree with that. I do not think the competition so venerated these days is the key to success.

Instead I think that if you do something with passion that alone is responsible for another much better level of success. The kind of success that makes us happy inside. The success that someone feels when he/she finishes a marathon, even if it’s not the first one to reach the line. The success that one feels while maintaining a blog even if it is only known by a handful of people. The success of doing something you love and be able to go further not because it competes with others, but because it is only natural that it be so.


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Acredito que quando fazemos algo por paixão – seja o que for – o poder que temos para fazer mais e melhor é, esse sim, imbatível. E acredito que é essa paixão que gera dinamismo, que gera ideias, que gera uma motivação só compreendida por alguns. 

E eu acredito na minha paixão. E acredito nas minhas rotinas. No fundo, acredito em mim, em nós. 

I believe that when we do something out of passion - whatever that may be - the power we have to do better is, that alone, unbeatable. And I believe it is this passion that generates dynamism and ideas, it is what creates a motivation only understood by few.

And I believe in my passion. I believe in my routines. Deep down, I believe in me, I believe in us.

{Film Photography by Nuno Ribeiro developed and scanned at Carmencita Film Lab




Ingredientes

  • 300 ml de água morna
  • 7 gr de fermento seco
  • 60 ml mel
  • 350 gr de farinha de espelta branca
  • 200 gr de farinha de espelta integral
  • 1 1/2 c. chá de canela moída
  • 1 pitada de sal
  • 150 gr de figos secos, picados grosseiramente
  • 100 gr de nozes, picadas  grosseiramente

Preparação

1. Pré-aquecer o forno a 200ºC. Untar uma forma de pão e reservar. 

2.  Juntar o fermento à água morna com o mel e deixar que fermente durante uns minutos.

3.  Numa taça juntar as farinhas, a canela e o sal. Juntar o fermento e amassar até obter uma massa consistente. Formar uma bola, colocar na taça e tapar com um pano. Deixar levedar por cerca de 1 hora.

4. Uma vez dobrado o volume da massa, acrescentar as nozes e os figos e voltar a amassar. Formar uma bola e colocar na forma. Dar cortes longos e levar ao forno cerca de 10 minutos.

5. Baixar o forno para 180ºC e deixar por mais cerca de 30 a 40 minutos.

Receita adaptada daqui



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Bolachas da Alegria... de Santa Hildegarda


{Cookies of Joy... from Saint Hildegard}


Recentemente foi-me dado a conhecer um livro que me cativou de uma forma verdadeiramente surpreendente. O livro é sobre a Medicina de Santa Hildegarda, uma monja beniditina alemã que, entre outras coisas, era uma médica informal e que foi proclamada muito recentemente como a Doutora da Igreja.   
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Recently a book has come to my knowledge that captivated me in a truly amazing way. The book is about the Medicine of St. Hildegard, a German benidictine abbess who, among other things, was an holistic physician and was recently proclaimed as the Doctor of the Church.

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Religiões à parte, a verdade é que nos escritos de Hildegarda podem encontrar-se inúmeras teorias e receitas medicinais com descrições de natureza cientifica até então desconhecida e cuja essência se encontra, nos dias de hoje, bastante atualizada. 

A verdade é que cada um de nós escolhe acreditar naquilo com que mais se identifica. Eu já há muito decidi que os dizeres antigos no que toca a medicina natural são de uma sabedoria incrível e que, retirando componentes mais religiosas e místicas, tipicamente envergam um grau de verdade e a experiência de séculos. Quem é mãe como eu {e não só} conhece certamente o xarope de açúcar mascavado e cenoura como tratamento da tosse que, na minha opinião, é efetivamente do mais eficaz que poderá haver.**
Ao longo da minha vida já pude comprovar vários tratamentos/ mézinhas deste género e a verdade é que já mais do que uma vez tive provas de que não são, de todo, desprovidos de razão. 
   
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Religion aspects aside, the truth is that in the writings of Hildegard we can find numerous theories and medicinal recipes with descriptions of scientific nature hitherto unknown and the essence of which is, nowadays, very updated.

The truth is that each of us choose to believe in what we identify more with. I have long since decided that the old sayings when it comes to natural medicine are of incredible wisdom and that, aside of religious and mystical components, typically those embrace in them a degree of truth and centuries of experience. Any mother like myself {and not only} certainly knows the brown sugar and carrot syrup as a treatment for cough, that in my opinion, is actually the most effective treatment for that illness.**
Throughout my life I could ever prove various treatments / remedies of this kind and the truth is that already more than once I had evidence that those are not at all devoid of reason.


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Mas o que realmente me chamou atenção na medicina de Hildegarda é que ela se baseia essencialmente no princípio de que é precisamente nos ingredientes da nossa alimentação que reside a grande maioria das curas para qualquer maleita. Hildegarda vai mais longe e diz que não existem na realidade doenças incuráveis e que, para qualquer uma, a natureza dispõe dos ingredientes para a curar.
Se isto é para mim algo descabido? Não, de todo. 

Entre muitas coisas que estou agora a começar a aprender com a Medicina de Hildegarda, destaca-se essencialmente o uso da espelta, do vinho e do funcho. 

Quer o vinho quer o funcho foram sempre utilizados pela minha avó na sua cozinha e recordo-me inclusive de remédios antigos à base de vinho – algo impensável nos dias de hoje… mas a verdade é que hoje em dia já se sabe que um copo de vinho por dia é até bastante benéfico. Talvez por isso me seja tão fácil acreditar nas receitas e recomendações de Hildegarda – afinal a minha avó era a minha avó. 
   
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But what really caught my attention in Hildegard's medicine is that it is essentially based on the principle that it is precisely in the ingredients of our daily food where lies the vast majority of cures for any ailment. Hildegard goes further and says that there are in fact no incurable diseases and that for whatever it may be, the nature has the ingredients to heal it.
If this is something unreasonable for me? Not at all.

Among many ingredients I'm now starting to learn from Hildegard's medicine, the most  relevant are spelt, wine and fennel.

Either wine and fennel have always been used by my grandmother in her kitchen and I actually remember ancient remedies wine-based - something unthinkable nowadays... but the truth is that today we know that a glass of wine a day is even quite beneficial. Maybe that's why it is so easy for me to believe in Hildegard's recipes and remedies - after all my grandmother was my grandmother.
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A espelta é um trigo ancestral e que, ao contrário do Trigo comum e de outros cereais, não sofreu a manipulação genética dos últimos 60 anos e que é cultivado de forma orgânica sem recursos a pesticidas e outros produtos químicos. Hildegarda acreditava que a espelta era um dos melhores alimentos tanto para doentes como para pessoas saudáveis e que poderia ser comido sob qualquer forma: pão, sopas, bolachas, caldos, etc. 

Recentemente dei por mim doente. Doente ao ponto de apanhar um susto – que não passou disso – mas que me fez repensar ainda mais a alimentação dentro da minha casa para mim e para a minha família. Decidi por isso fazer algo que ainda não tinha feito integralmente mas que, neste momento, se tornou obrigatório. Decidi abolir de vez a farinha branca refinada e o açúcar refinado dentro de casa e passar a usar maioritariamente a farinha de espelta ou, em alternativa, outras farinhas sempre de cultivo biológico preferencialmente integrais. E o açúcar na minha despensa agora só mesmo o mascavado integral.
   
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Spelt is an ancient grain that, contrary to common wheat and other cereals, has not undergone through the genetic manipulation of the past 60 years and it is still grown organically without resources to pesticides and other chemicals. Hildegard believed spelt was one of the best food for both patients and healthy persons and it could be eaten in any way: bread, soups, biscuits, stocks, etc.

Recently I found myself sick. Sick to the point of getting myself a bit of a scare - which was no more that that - but that made me rethink even more the food in my house for me and my family. So I decided to do something that I hadn't been fully able to before but that at this time, became mandatory. I decided to abolish for once refined white flour and refined sugar at my home and instead use mostly spelt flour or alternatively, other flours preferably always whole and form organic cultivation. And the sugar in my pantry is now brown.

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Naturalmente que haverá exceções, porque afinal não sou nem nunca serei uma pessoa extremista e porque acredito que para toda e qualquer regra, existe sempre uma exceção. Além disso julgo que, como em tudo na vida, o bom senso é e será sempre o nosso melhor aliado seja qual for o assunto que se nos apresente. E devo ainda mencionar que isto é uma opção pessoal baseada na minha própria experiência ao longo dos anos e feita após bastante reflexão e estudo sobre este tema.
Faço intenções de partilhar as minhas receitas aqui, umas fiéis às de Hildegarda, outras simplesmente adaptadas por mim de acordo com os ensinamentos dela e espero que esta partilha possa vir a ser de valor para quem esteja do outro lado. 

Hoje deixo o que espero ser a primeira de muitas receitas de Hildegarda de Bingen. As bolachas da Alegria.
   
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Of course there will be exceptions, because after all I am not and never will be an extremist person and because I believe that for any rule, there is always an exception. Also I think, as with everything in life, common sense is and will always be our best ally whatever it may be the the subject we're facing. And I must also mention that this is a personal choice based on my own experience over the years and one made after enough reflection and study on this topic.
I intend to share my recipes here, some faithful to Hildegard's recipes, others simply adapted by me according to her teachings and I hope this sharing might be of value to anyone who is on the other side.

Today I bring you what I hope is the first of many recipes of Hildegard of Bingen. The Cookies of Joy.

Ingredientes

  • 3/4 chávena de manteiga
  • 3/4 chávena de açúcar mascavado
  • 1 ovo biológico
  • 1 c. chá de fermento
  • 1/4 c. chá de sal
  • 2 chávenas de farinha integral de espelta
  • 1 1/2 c. chá de canela em pó
  • 1 c. chá de noz moscada em pó
  • 3/4 c. chá de cravinho moído

Preparação

1. Bater a menteiga com o açúcar até obter um creme. Juntar o ovo e misturar bem.

2. Peneirar a farinha e acrescentar o  fermento e os restantes ingredientes. Juntar ao creme da manteiga e açúcar e envolver bem até obter uma massa. Ajustar a farinha conforme necessário até que se consiga trabalhar a massa.

3. Estender com um rolo e cortar com um cortador de bolachas, ou em alternativa fazer pequenas bolinhas com as mãos e achatar num tabuleiro forrado com papel vegetal.

4. Levar ao forno a 180ºC cerca de 10 minutos.  





**No que se refere ao xarope de cenoura, descobri que Santa Hildegarda afirmava que o açúcar de cana integral (no estado puro) tinha poderes benéficos para a tosse. Eu sempre achei que o beneficio provinha da cenoura e a verdade é que a minha mãe sempre me disse que tinha de ser feito com o açúcar mascavado. É curioso não é?   

** As for the carrot syrup, I found out that Saint Hildegard believed in the medicinal power of raw cane sugar (in it's pure state) for treating coughs. I always thought the healing came from the carrot and truth is that my mother always told be it had to be made with muscovado sugar. Isn't it curious?  


Flans de courgette... e o primeiro livro que li.


{Zuchinni flans... and the first book I ever read}


O primeiro livro que li, teria eu os meus 9 anos, marcou-me de uma forma verdadeiramente avassaladora.  
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The first book I ever read, I was probably somewhere around nine years old at that time, marked me in a truly overwhelming way.

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A Casa da Árvore Oca. Era assim o título. Os detalhes da história foram-se perdendo ao longo do tempo, mas recordo-me da sensação de folhear as páginas amareladas e, sobretudo, da minha incrível admiração em como um livro de apenas letras se convertia, de forma absolutamente irreal, em imagens fantásticas na minha mente.   
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The Hollow Tree House. So was the title. The details of the story have been lost in my mind over time, but I remember clearly the feeling of flipping through the yellowed pages and especially my incredible admiration as a book formed of only letters could be converted, in an absolutely unreal way, in fantastic images on my mind.

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Lembro-me, da imagem clara como se da realidade se tratasse, daquela árvore oca que o meu cérebro concebeu e guardou. Lembro-me de acordar um sábado de manhã, ir para o sofá e preferir a leitura do meu livro aos desenhos animados de sempre. Foi nesse dia que percebi que nenhum desenho animado se poderia comparar à minha própria imaginação. 

Lembro-me especialmente da sensação de ter aprendido tanto com aquele livro.

Foi uma das melhores descobertas de toda a minha vida. A leitura é ainda hoje uma das coisas que maior prazer me dá. 

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I remember the clear picture as if it was real, of that hollow tree house that my brain designed and saved. I remember waking up one Saturday morning, going to the couch and trading the cartoons for the reading of my book. That was the day I realized that no cartoons could ever compare to my own imagination.

Specially, I remember the felling of having learned so much with that book.

It was one of the best discoveries in my life. Reading is still one of the things that pleasures me the most.

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Não passo sem um livro e adoro fugir à rotina diária, nem que apenas por breves momentos, para me perder nas aventuras de uma das minhas heroínas.  
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I simply can’t be without a book and I love escaping the daily routine, even if only briefly, to lose myself in the adventures of any of my heroins.

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Na leitura reencontro-me e sinto-me sempre de novo uma criança ávida por novas aventuras e mundos desconhecidos, qual Alice no País das Maravilhas. E a verdade é que isso me refresca e me faz sentir que há sempre algo novo à minha espera...

... nem que apenas nas letras de uma qualquer página gasta.    
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In reading I reacquaint with myself and I become, once again, an eager child for new adventures and unknown worlds, just like an Alice in Wonderland. And truth is that it refreshes me and makes me feel that there's always something new awaiting for me ...

... if only in the lyrics of any worn page.

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{Film Photography by Nuno Ribeiro developed and scanned at Carmencita Film Lab
Ingredientes

  • 2 courgettes médias, cortadas finamente em meias luas 
  • 4 ovos + 1 clara (preferencialmente biológicos)
  • 4 c. sopa de farinha maizena
  • 1 punhado de hortelã menta cortada em juliana
  • 3 c. sopa de ricotta
  • 1 shalota finamente picada
  • 1 dente de alho picado
  • 1/2 c. chá de noz moscada
  • 1 fio de Azeite
  • sal
  • Pimenta
Preparação

1. Numa frigideira colocar o fio de azeite, a shalota e alho picados finamente e a courgette e deixar fritar até que a courgette fique cozinhada.

2. Numa taça bater os ovos e a clara com a maizena, a noz moscada, o sal e pimenta. Juntar a ricotta e envolver bem e no final retificar temperos. Juntar a courgette cozinha, a menta e envolver bem.

3. Deitar o preparado em forminhas de pudins e levar ao forno a 180ºC por cerca de 20 minutos ou até que estejam dourados.   


*Receita adaptada de "A Kitchen in France" de Mimi Thorisson.  



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09 10