Bolachas da Alegria... de Santa Hildegarda


{Cookies of Joy... from Saint Hildegard}


Recentemente foi-me dado a conhecer um livro que me cativou de uma forma verdadeiramente surpreendente. O livro é sobre a Medicina de Santa Hildegarda, uma monja beniditina alemã que, entre outras coisas, era uma médica informal e que foi proclamada muito recentemente como a Doutora da Igreja.   
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Recently a book has come to my knowledge that captivated me in a truly amazing way. The book is about the Medicine of St. Hildegard, a German benidictine abbess who, among other things, was an holistic physician and was recently proclaimed as the Doctor of the Church.

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Religiões à parte, a verdade é que nos escritos de Hildegarda podem encontrar-se inúmeras teorias e receitas medicinais com descrições de natureza cientifica até então desconhecida e cuja essência se encontra, nos dias de hoje, bastante atualizada. 

A verdade é que cada um de nós escolhe acreditar naquilo com que mais se identifica. Eu já há muito decidi que os dizeres antigos no que toca a medicina natural são de uma sabedoria incrível e que, retirando componentes mais religiosas e místicas, tipicamente envergam um grau de verdade e a experiência de séculos. Quem é mãe como eu {e não só} conhece certamente o xarope de açúcar mascavado e cenoura como tratamento da tosse que, na minha opinião, é efetivamente do mais eficaz que poderá haver.**
Ao longo da minha vida já pude comprovar vários tratamentos/ mézinhas deste género e a verdade é que já mais do que uma vez tive provas de que não são, de todo, desprovidos de razão. 
   
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Religion aspects aside, the truth is that in the writings of Hildegard we can find numerous theories and medicinal recipes with descriptions of scientific nature hitherto unknown and the essence of which is, nowadays, very updated.

The truth is that each of us choose to believe in what we identify more with. I have long since decided that the old sayings when it comes to natural medicine are of incredible wisdom and that, aside of religious and mystical components, typically those embrace in them a degree of truth and centuries of experience. Any mother like myself {and not only} certainly knows the brown sugar and carrot syrup as a treatment for cough, that in my opinion, is actually the most effective treatment for that illness.**
Throughout my life I could ever prove various treatments / remedies of this kind and the truth is that already more than once I had evidence that those are not at all devoid of reason.


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Mas o que realmente me chamou atenção na medicina de Hildegarda é que ela se baseia essencialmente no princípio de que é precisamente nos ingredientes da nossa alimentação que reside a grande maioria das curas para qualquer maleita. Hildegarda vai mais longe e diz que não existem na realidade doenças incuráveis e que, para qualquer uma, a natureza dispõe dos ingredientes para a curar.
Se isto é para mim algo descabido? Não, de todo. 

Entre muitas coisas que estou agora a começar a aprender com a Medicina de Hildegarda, destaca-se essencialmente o uso da espelta, do vinho e do funcho. 

Quer o vinho quer o funcho foram sempre utilizados pela minha avó na sua cozinha e recordo-me inclusive de remédios antigos à base de vinho – algo impensável nos dias de hoje… mas a verdade é que hoje em dia já se sabe que um copo de vinho por dia é até bastante benéfico. Talvez por isso me seja tão fácil acreditar nas receitas e recomendações de Hildegarda – afinal a minha avó era a minha avó. 
   
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But what really caught my attention in Hildegard's medicine is that it is essentially based on the principle that it is precisely in the ingredients of our daily food where lies the vast majority of cures for any ailment. Hildegard goes further and says that there are in fact no incurable diseases and that for whatever it may be, the nature has the ingredients to heal it.
If this is something unreasonable for me? Not at all.

Among many ingredients I'm now starting to learn from Hildegard's medicine, the most  relevant are spelt, wine and fennel.

Either wine and fennel have always been used by my grandmother in her kitchen and I actually remember ancient remedies wine-based - something unthinkable nowadays... but the truth is that today we know that a glass of wine a day is even quite beneficial. Maybe that's why it is so easy for me to believe in Hildegard's recipes and remedies - after all my grandmother was my grandmother.
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A espelta é um trigo ancestral e que, ao contrário do Trigo comum e de outros cereais, não sofreu a manipulação genética dos últimos 60 anos e que é cultivado de forma orgânica sem recursos a pesticidas e outros produtos químicos. Hildegarda acreditava que a espelta era um dos melhores alimentos tanto para doentes como para pessoas saudáveis e que poderia ser comido sob qualquer forma: pão, sopas, bolachas, caldos, etc. 

Recentemente dei por mim doente. Doente ao ponto de apanhar um susto – que não passou disso – mas que me fez repensar ainda mais a alimentação dentro da minha casa para mim e para a minha família. Decidi por isso fazer algo que ainda não tinha feito integralmente mas que, neste momento, se tornou obrigatório. Decidi abolir de vez a farinha branca refinada e o açúcar refinado dentro de casa e passar a usar maioritariamente a farinha de espelta ou, em alternativa, outras farinhas sempre de cultivo biológico preferencialmente integrais. E o açúcar na minha despensa agora só mesmo o mascavado integral.
   
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Spelt is an ancient grain that, contrary to common wheat and other cereals, has not undergone through the genetic manipulation of the past 60 years and it is still grown organically without resources to pesticides and other chemicals. Hildegard believed spelt was one of the best food for both patients and healthy persons and it could be eaten in any way: bread, soups, biscuits, stocks, etc.

Recently I found myself sick. Sick to the point of getting myself a bit of a scare - which was no more that that - but that made me rethink even more the food in my house for me and my family. So I decided to do something that I hadn't been fully able to before but that at this time, became mandatory. I decided to abolish for once refined white flour and refined sugar at my home and instead use mostly spelt flour or alternatively, other flours preferably always whole and form organic cultivation. And the sugar in my pantry is now brown.

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Naturalmente que haverá exceções, porque afinal não sou nem nunca serei uma pessoa extremista e porque acredito que para toda e qualquer regra, existe sempre uma exceção. Além disso julgo que, como em tudo na vida, o bom senso é e será sempre o nosso melhor aliado seja qual for o assunto que se nos apresente. E devo ainda mencionar que isto é uma opção pessoal baseada na minha própria experiência ao longo dos anos e feita após bastante reflexão e estudo sobre este tema.
Faço intenções de partilhar as minhas receitas aqui, umas fiéis às de Hildegarda, outras simplesmente adaptadas por mim de acordo com os ensinamentos dela e espero que esta partilha possa vir a ser de valor para quem esteja do outro lado. 

Hoje deixo o que espero ser a primeira de muitas receitas de Hildegarda de Bingen. As bolachas da Alegria.
   
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Of course there will be exceptions, because after all I am not and never will be an extremist person and because I believe that for any rule, there is always an exception. Also I think, as with everything in life, common sense is and will always be our best ally whatever it may be the the subject we're facing. And I must also mention that this is a personal choice based on my own experience over the years and one made after enough reflection and study on this topic.
I intend to share my recipes here, some faithful to Hildegard's recipes, others simply adapted by me according to her teachings and I hope this sharing might be of value to anyone who is on the other side.

Today I bring you what I hope is the first of many recipes of Hildegard of Bingen. The Cookies of Joy.

Ingredientes

  • 3/4 chávena de manteiga
  • 3/4 chávena de açúcar mascavado
  • 1 ovo biológico
  • 1 c. chá de fermento
  • 1/4 c. chá de sal
  • 2 chávenas de farinha integral de espelta
  • 1 1/2 c. chá de canela em pó
  • 1 c. chá de noz moscada em pó
  • 3/4 c. chá de cravinho moído

Preparação

1. Bater a menteiga com o açúcar até obter um creme. Juntar o ovo e misturar bem.

2. Peneirar a farinha e acrescentar o  fermento e os restantes ingredientes. Juntar ao creme da manteiga e açúcar e envolver bem até obter uma massa. Ajustar a farinha conforme necessário até que se consiga trabalhar a massa.

3. Estender com um rolo e cortar com um cortador de bolachas, ou em alternativa fazer pequenas bolinhas com as mãos e achatar num tabuleiro forrado com papel vegetal.

4. Levar ao forno a 180ºC cerca de 10 minutos.  





**No que se refere ao xarope de cenoura, descobri que Santa Hildegarda afirmava que o açúcar de cana integral (no estado puro) tinha poderes benéficos para a tosse. Eu sempre achei que o beneficio provinha da cenoura e a verdade é que a minha mãe sempre me disse que tinha de ser feito com o açúcar mascavado. É curioso não é?   

** As for the carrot syrup, I found out that Saint Hildegard believed in the medicinal power of raw cane sugar (in it's pure state) for treating coughs. I always thought the healing came from the carrot and truth is that my mother always told be it had to be made with muscovado sugar. Isn't it curious?  



{ Hildegard Cookies of Joy Recipe }


Ingredientes


  • 3/4 cup butter
  • 3/4 cup brown sugar
  • 1 organic egg
  • 1 teaspoon baking powder
  • 1/4 teaspoon salt
  • 2 cups whole spelt flour 
  • 1 1/2 teaspoons cinnamon
  • 1 teaspoon nutmeg
  • 3/4 teaspoon cloves


Method


1. Cream the butter with sugar. Add the egg and mix well.

2. Sift flour and yeast and add the remaining ingredients. Add to butter and sugar and wrap well until a dough forms. Adjust the flour as needed until the dough is workable.

3. Extend with a rolling pin and cut with a cookie cutter, or alternatively make small balls with your hands and flatten on a baking tray lined with parchment paper.

4. Bake at 180 °C about 10 minutes.



9 comentários:

  1. Su, gostei imenso do teu texto e vou levar estas bolachinhas comigo, se assim permitires. Os meus hábitos alimentares também têm vindo cada vez mais a mudar e de dia para dia sou mais apologista do biológico e do integral. A espelta já faz parte da minha alimentação, quer sob a forma de farinha, quer o grão propriamente dito. E os benefícios para a saúde são tantos. Não conhecia a monja Hildegarda, mas nada como a sabedoria de antigamente, eu também sou fã desse xarope de cenoura e açúcar mascavado e resulta mesmo. :)
    Um beijinho.

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    1. Célio, também estou a usar o grão espelta e adoro a consistência. Ainda só não consegui encontrar flocos de espelta (como os flocos de aveia) mas continuo a minha busca.
      Recomendo as bolachas que são mesmo deliciosas e aliadas às propriedades das especiarias julgo que são realmente uma boa opção :)

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  2. Estas bolachas vão ser reproduzidas na minha cozinha, assim que haja um tempo livre :)
    É engraçado como os nosso hábitos se vão alternado ao longo do tempo; eu busco imensa inspiração em livros (tanto que agora fiquei mesmo curiosa com esse da Santa Hildegarda)
    Como sempre, fotografias de fazer sonhar :)
    Um beijinho
    Teresa | A Cozinha da Ovelha Negra

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    1. Teresa, as bolachas são rapidissimas de fazer. Ontem voltei a fazer e desta vez em vez de cortar, retirei com uma colher medida de 1 c. sopa e moldei bolas, coloquei no tabuleiro e achatei com uma colher. Mais rápido e prático.
      Beijinhos

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  3. Ai que bonitas essas tuas bolachas, desconhecia por completo e fiquei rendida à textura, se ainda não foste desejo.te umas boas férias.

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    1. São uma delicia mesmo :D
      Obrigada minha linda e boas férias para ti também. Grande beijinho.

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  4. Su, desconhecia esse livro e fiquei curiosa, gosto de ler sobre remédios naturais, da cura pelo que se come e do que o nosso corpo reage bem ou mal.
    As bolachinhas devem ser deliciosas. Aqui aos poucos também vamos mudando os hábitos, sem extremismos pois claro, mas adoro espelta, mesmo em grão e em flocos para fazer as granolas.
    Um beijinho.

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  5. Querida Su,
    Como sempre, li este post no dia que o publicaste, mas como não deu para comentar logo, o tempo vai passando e pronto..., mais vale tarde que nunca e cá estou.
    Concordo 100% com tudo o que escreves e religiões à parte, como dizes e fundamentalismos postos de parte, acredito muito na sabedoria popular, pois tem muito de verdade e centenários de experiência a curroborá-la.
    Os ditos populares, bem analisados, têm um enorme fundo de verdade e por falares na tua avó, lembrei-me da minha, que nunca usou relógio, nem sabia ver as horas e olhava para o Sol e dizia "deve ser meio dia" e eu olhava para o relógio e mais 5, menos 5, lá estava: certeira e assertiva e isto não tem nada a ver com o que escreves, mas lembrei-me.
    Quanto ao teu susto, ainda bem que não passou disso e espero que esteja tudo bem contigo.
    Olha, fico encantada com a tua partilha das bolachas da alegria que a mim, só de olhar, já me fazem feliz e espero sim, que partilhes muitas mais receitas desse livro, pois fiquei bastante curiosa em relação a ele.
    Um beijinho minha doce e posh Su :)).
    Lia

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  6. As imagens belas desse post me encantaram e inspiraram, há mais ou menos 3 anos faço os biscoitos da alegria no Brasil. Gratidão pela beleza e encantamento.

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