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Aceitar o envelhecimento



A meses de completar os 40, devo dizer que a verdadeira crise de encarar o meu próprio envelhecimento já se revelou e começa agora a aligeirar-se na minha mente e forma de estar.


A verdade é que ninguém está preparada(o) para, de um dia para o outro, sentir que aconteceu... que deixámos oficialmente de ser jovens, que a nossa beleza se dissipou sem darmos por isso e na sua vez surgiram as rugas e o aspeto mais cansado, que devemos ponderar o que vestir e como agir a bem da idade que temos. E, pelo menos no meu caso, foi mesmo assim que aconteceu, um impacto, ou antes uma ideia que se alojou um dia e que me levou a olhar para mim própria de forma muito diferente. Afinal até esse ponto eu era apenas uma miúda.


Tenho pena que, sobretudo nos dias e sociedade de hoje, não se encare o envelhecimento de outra forma. Tudo nos diz que temos de permanecer infinitamente jovens e estáticos. Obviamente um contra-senso que colide com a outra parte da sociedade que nos diz que devemos estar constantemente a evoluir.

Por outro lado, numa era em que tanto se promove a diversificação e a aceitação, continuamos a ter as mensagens da área da beleza, moda e outras sob o mote "anti-aging".


É extremamente difícil aceitar as nossas rugas quando os filtros das redes sociais os removem, quando as grandes estrelas parecem reverter qualquer sinal da passagem do tempo para se tornarem antes quais bonecas plastificadas, quando nos olhamos ao espelho e estamos completamente formatados para ver apenas os defeitos. E digo formatados porque, infelizmente, tudo à nossa volta nos ensina a rejeitar aquilo que na verdade é tão somente natural.


Não procuro ser papista, nem hipócrita a fim de dizer que jamais colocarei botox ou farei outros procedimentos estéticos, até porque não o encaro com maus olhos. Mas tenho tentado todos os dias combater os demónios que vão surgindo e aprender a gostar daquilo que parece ser tão odiado pelos padrões de beleza da sociedade.

Um nariz bem imperfeito, umas sardas a mais, linhas de expressão vincadas... Tudo isto é muito mais difícil para uma mulher, ainda que também o seja para um homem. Tudo isto é ainda mais penoso se ao nosso lado não temos alguém que nos transmita confiança e nos ajude a combater estes demónios. Algo que felizmente eu tenho a imensa sorte de ter.


Ao entrar nos 40 sentimos um certo peso nos ombros. A par disso sentimos pesar. Pesar porque nos damos conta que a nossa infância e juventude terminaram realmente e não há nada que as traga de volta. Pesar pelo que não fizemos e não vivemos. Pesar porque tememos que os próximos vinte passem ainda mais depressa.


A verdade é que neste processo de aceitação nos podemos sentir sozinhas. E tristes. E desanimadas. E isso tem um peso no nosso bem estar emocional.


A boa notícia é que eventualmente aprendemos (ou decidimos) a aceitar esta passagem da idade de forma tranquila. E aprendemos (ou decidimos) a olhar para nós próprias de outra forma. A olhar de forma menos crítica e ver a beleza nas imperfeições e nas marcas que o tempo nos deu. Aceitamos a maturidade, a idade, o envelhecimento.


E é só quando decidimos aceitar o nosso envelhecimento que percebemos que há toda uma nova vida para ser vivida. Nos nossos próprios termos.